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julho 24, 2005
Segunda-feira, 25 de Julho
Desta vez e de peito feito vou abalançar-me a discorrer sobre os verbos regidos por uma ou mais preposições. De imediato o meu alter-ego, rezingão e caturra, aqui à minha ilharga, me acotovela e me belisca, perguntando-me ou provocando-me: “A que te vais tu abalançar? Ainda te recordas das arrematações da tua infância, no adro da igreja, durante as quais (em que) o pregoeiro exclamava a plenos pulmões: “São três patacas e meia! Quem mais se abalança ao bolo de massa sovada que a Ti Forneira fez de promessa à nossa Padroeira?” Como se ouve, até rima como convém a um pregão que se preza de cumprir a sua missão propagandística!
É verdade! Durante largo tempo não entendi aquele quem mais se abalança? (quem mais se atreve ou ousa subir a parada, quem dá mais?). Julgava na minha candura que o apregoador punha ali um a excedentário no princípio da palavra, uma prótese, e que o que ele afinal queria dizer era balança, instrumento de pesar... Está relacionado, sem dúvida, que de balança substantivo se pariu o verbo balançar: fazer oscilar, pesar, oscilar, hesitar. Isto e outras coisas fiquei a saber muito mais tarde nas andanças dos livros, sobretudo nas aventuras da gramática da vida...
Tenho por isso a impressão de que a empresa a que me vou abalançar será um tanto ou quanto difícil. Embora os falantes da Língua Portuguesa conheçam muitas das preposições que regem certos e determinados verbos: gostar de, depender de, lutar por, etc., têm, por outro lado, muita dificuldade em empregá-las antes do relativo. Ninguém se engana se não houver que, o qual ou os quais ou quem: gosto muito de ler o jornal logo de manhã; gosto de ir ao cinema ao domingo à tarde; apesar dos seus trinta anos de idade, ainda depende inteiramente dos pais; ir ou não ir à praia depende do tempo que fizer; ele luta por uma vida melhor; todos devemos lutar por melhores condições de vida e de trabalho...
Porém, quando se trata de uma construção mais elaborada, adeus minhas encomendas! Põe-se um que em todas as frases... Ouve-se e lê-se por toda a parte, não raro proveniente de pessoas que tinham por obrigação cívica e cultural não crucificar a língua: o livro que mais gosto, em vez de o livro de que mais gosto; o homem ou a mulher que mais gosto, em vez de o homem ou a mulher de quem mais gosto (se for o verbo amar, que não usa preposição, já se dirá: o homem ou a mulher que mais amo).
Há dias, num programa televisivo, ouvi da boca de um grande político português: “Este não é o país que lutámos durante trinta anos de democracia!” É grave, porque devia ter dito: “Este não é o país por que lutámos durante trinta nos de democracia!” Quanto ao verbo depender (de): A pessoa de quem ela dependia acabou por lhe retirar a mesada. De quem dependia ela? Do tio Manuel. O tio Manuel, de quem a sobrinha dependia, acabou por lhe suspender a mesada. No português mascavado da pós-modernidade, a frase anterior é corrida a que, dando este panorama lindíssimo: O tio Manuel que a sobrinha dependia acabou por lhe suspender a mesada.
Será assim um bicho-de-sete-cabeças tão medonho para que as pessoas, e pouco importa o grau de instrução, cometam deslizes desta natureza? Certamente que não. Basta um módico esforço. Tudo requer esforço e por vezes um pequeno sacrifício. E, se for grande, não tenhamos receio, que ninguém morre por isso. A cultura não cai do céu, nunca caiu, só o maná é que sim, e hoje já não cai! Os milagres nunca couberam no presente, só ficam bem e verosímeis no passado. E aprender, qualquer que seja o ramo do conhecimento, custa por vezes os olhos da cara! (continua)
Cristóvão de Aguiar
Publicado por L. Aguiar-Conraria às julho 24, 2005 01:58 PM
Comentários
Mais uma vez li e (re)li e enfiei a carapuça. É que destas havendo muitas, tal como bonés, as que aqui enfio estimulam cuidados e desvelos no manusear das palavras. Como sempre, agradeço.
Publicado por: Tati às julho 24, 2005 02:05 PM
Vou me abalançar na empresa de aprender mais um pouco da língua com a qual me vou retratando.
Publicado por: Nuno Barata às julho 25, 2005 01:12 PM
Apenas o que "postei" hoje:
Simplesmente deliciosas...
As "Charlas Sobre a Língua", do escritor Cristovão de Aguiar no D.I.
Publicado por: Miguel de Sousa Azevedo às julho 25, 2005 04:35 PM
temática interessante e pertinente. as preposições existem e para serem aplicadas devidamente. mas hoje em dia...nem sempre isso se verifica.
Publicado por: moriana às julho 26, 2005 12:52 AM