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julho 29, 2005

Cultura geral

Quando se fala em cultura geral raramente se fala de ciência. Quando Cavaco Silva se enganou sobre os cantos dos Lusíadas toda a "intelectualidade" fez pouco dele. Essa mesma intelectualidade não tem problema nenhum em não saber os princípios mais básicos de Economia. Pelo contrário, muitas vezes faz disso gala. Soubessem alguns princípios básicos, como a teoria das vantagens comparativas de Ricardo (que data de inícios de 1800), e talvez não dissessem tantas alarvidades, como sempre dizem quando discutem o comércio internacional.

(Não devia ser necessário acrescentar este parêntesis, mas, em tempos pré-eleitorais, é melhor ter cuidado. Não se leia nesta entrada nenhum apoio implícito ou explícito a Cavaco Silva. Só votaria em Cavaco se a alternativa fosse algo de horrível, tipo Guterres ou Sampaio. Com o segundo não tenho que me preocupar, felizmente. Quanto ao primeiro, e sem desejar mal a ninguém, que continue refugiado lá fora.)

Desses intelectuais que ficam escandalizados quando alguém confunde Mann com Moore quantos sabem o que é o cálculo diferencial? Uma coisa que já vem do tempo de Newton. Dos que gostam de dissertar sobe o paradoxo de Zenão e da Tartaruga, quantos se deram ao trabalho de estudar os limites de funções para encontrarem a resposta ao paradoxo? Quantos perderam umas horas a tentar perceber a famosa fórmula de Einstein?

Será o cálculo diferencial menos património cultural do que o Ulisses, de James Joyce?

O referendo sobre a legalização do aborto também vai estar em jogo nas eleições presidenciais. Gostaria que os resultados tivessem consequências duradouras. Os resultados dos referendos deviam ser vinculativos por um período mínimo de 10 anos. Mas, como sabemos, estamos bem longe disto. Na verdade, para o referendo ser vinculativo (durante um ano apenas) é necessário que a maioria dos eleitores não se abstenha. Regra que por si só é um disparate.

Suponham que a população é constituída por 100 eleitores. Considerem dois cenários:

1- 26 pessoas votam 'sim', 25 votam 'não' e 49 abstêm-se. O 'sim' é vinculativo.
2- 49 votam 'sim', ninguém vota 'não' e 51 abstêm-se. O 'sim' não é vinculativo.

No segundo cenário, quase o dobro das pessoas manifesta-se a favor do 'sim', ninguém mostra preferência pelo 'não', e os resultados apenas são vinculativos no primeiro caso. Este tipo de regras também ilustra a (i)literacia dos nossos juristas...

Publicado por L. Aguiar-Conraria às julho 29, 2005 05:28 AM

Comentários

Ainda há dias, num post, invoqueie esa teoria das vantagens comparativas de Ricardo, nem me lembrava onde tinha lido ou ouvido sobre isso, é uma tese brilhante.
Escrevi então assim:
"Eu quero as minhas Ilhas potenciando o que possam ter de diferente do resto do mundo, as suas vantagens comparativas, não as quero iguais a qualquer outro lugarejo. Só se vence inovando não copiando"

Publicado por: Nuno Barata às julho 29, 2005 06:17 AM

"Será o cálculo diferencial menos património cultural do que o Ulisses de James Joyce?"

Além do mais, é mais fácil de compreender :-)

Publicado por: JVC às julho 29, 2005 09:39 AM

em conclusão, nós os génios somos poucos.auguro um lugar de ministro.

Publicado por: Anonymous às julho 29, 2005 09:56 AM

“O Binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso.”

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

Publicado por: Sérgio Nunes às julho 29, 2005 10:40 AM

Luís,

Concordo inteiramente contigo no que à questão dos referendos diz respeito. A abstenção é um direito tão democrático como o de ir exercer o voto. Se 99% das pessoas se abstêm livremente não se podem queixar depois dos resultados. Resultados esses que devem ser vinculativos durante um período alargado de tempo.

Quanto ao privilégio que se faz da cultura literária em contraponto aos conhecimentos económicos (ou outros de carácter científico) trata-se de um dos exemplos (e remeto para um post anterior) que me afasta da esquerda. É um tique recorrente em boa parte da esquerda nacional. Esquerda de cujo elitismo mal disfarçado resulta uma arrogância cultural que me causa repulsa.

A este nível deixo-te uma provocação. Dizes que só votarias em Cavaco caso a alternativa fosse algo de horrível tipo Sampaio ou Guterres. Parece que a alternativa vai ser Mário Soares. Alguém que a acreditar nas declarações mais recentes anti-globalização desconhece a teoria das vantagens comparativas de Ricardo...

Um abraço,

Pedro Martins

Publicado por: Pedro Martins às julho 29, 2005 11:03 AM

Reflexão interessante, Luís. Teremos de pensar no significado de cultura, ou melhor, nos significados de cultura. Ninguém pode ser hoje enciclopédico (Aristóteles terá sido, provavelmente, o único homem que abarcou um saber universal, porque à data isso era possível). Eu confesso que não sei economia e por isso não me pronuncio sobre ela a não ser como leigo. Talvez o prof. Cavaco não devesse ter falado sobre Os Lusíadas... Mas o tema é bem interessante. Vou recuperá-lo para as minhas aulas de "Currículo e Cultura" do próximo semestre...

Publicado por: C. Varela de Freitas às julho 29, 2005 11:27 AM

"A cultura integral do indivíduo - a questão central do nosso tempo", não era assim que se chamava a reflexão de Bento de Jesus Caraça? Sugiro um terceiro cenário dos referendos:
20 votam 'sim', 19 votam 'não' e 81 abstêm-se. O 'sim' não é vinculativo.

Acho bem que o 'sim' não seja vinculativo, de acordo com a regra actual. Apenas 20% da população se pronunciou positivamente num tema que aparentemente divide completamente a opinião pública. É verdade que 81% da população se demitiu da sua obrigação cívica - mas é mais prudente que o 'sim' não seja vinculativo. A regra actual não é assim tão imbecil.

Na Alemanha o referendo é proibido pela constituição, o que ainda é mais cauteloso. Corresponde mais ou menos a dizer que um referendo nunca é vinculativo, mesmo que 100% do eleitorado se pronuncie, votando 'sim'...

Publicado por: Rui às julho 29, 2005 10:26 PM

Rui
Não acho que esse terceiro cenário que sugeres seja um grande exemplo, pois não me parece que levante algum paradoxo, nem quando comparado com o primeiro nem com o segundo cenário. Ao contrário da comparação do segundo com o primeiro.

Quando comparamos o segundo com o primeiro vemos que no segundo há mais pessoas a votar do lado vencedor e menos a votar do lado derrotado, pelo que seria de esperar que o segundo cenário fosse vinculativo ao contrário do primeiro.

No exemplo que apontas não há nenhum princípio de transitividade que seja violado, a não ser, claro, que esteja a ver mal.

Publicado por: LA-C às julho 29, 2005 10:56 PM

Não vejo um escândalo assim tão grande na acepção de "cultura" dominante. Cultura, no seu sentido elitista, pressupõe fruição, lazer, estética, e portanto é de esperar que o termo esteja mais associado às artes. Não quero com isto dizer que a ciência não possa ser bela, mas Ciência é sempre análise, é espírito pensante que divide um espaço limitado com o espírito sentido. Portanto, ler Lusíadas é cultura, mas dividir Lusíadas em versos e estes em métrica é ciência.
Quem desconhece os princípios mais básicos da Economia não é inculto, é tão só ignorante. Sem querer ofender ninguém, que eu de técnicas de pintura não percebo nada. Mas sei admirar um quadro.

Publicado por: AJM às julho 30, 2005 04:48 AM

Realmente a regra referendária em vigor tem o mérito de exigir que pelo menos 26% do eleitorado vote favoravelmente, para esse voto ser vinculativo - isso é ilustrado pelo teu cenário 1 e também pelo meu. Mas há um demérito: 49% do eleitorado pode votar favoravelmente, sem contar com um único voto expresso de oposição, e essa votação não ser vinculativa.

Em Economia estamos habituados à existência de tradeoffs e parece que estamos aqui em presença de um. A não ser que tenhas uma proposta melhor...

Não compreendo a tua alusão à violação da transitividade. Nos teus cenários o 'sim' é maioritário e portanto ganha, sendo que no primeiro cenário o 'sim' é validado com um caracter vinculativo, por mais de metade do eleitorado se ter expressado, ao passo que no segundo essa qualificação é negada, por insuficiência da participação eleitoral. Suponho que para acontecer uma quebra da transitividade eram necessárias 3 alternativas e nos teus cenários ocorrem apenas 2 alternativas nas eleições (ou voto 'sim' pela despenalização do aborto, ou voto 'não').

Publicado por: Rui às julho 30, 2005 11:37 AM

Rui
Tens razão. Abusei do termo ‘transitividade’. Não é a palavra mais correcta. Devia ter-me ficado pelo paradoxo.

Quanto a uma regra que não levante os paradoxos aqui descritos há pelo menos três. Uma será os referendos serem sempre vinculativos, outra será nunca serem vinculativos (regra com a qual discordaria) e a terceira foi sugerida por ti próprio: o referendo deve ser vinculativo apenas quando pelo menos 26% dos eleitores estiver de acordo com a proposta vencedora.

AJM
Quando falas em cultura num sentido elitista, falas também em aprender a gostar, e em fazer um esforço por apreciar artes que são menos imediatistas. É assim se costuma defender que o Estado dê subsídios para espectáculos que ninguém vê: há que educar o povão. Pelo que essa ideia da fruição não é assim tão linear. Apesar de tudo gosto da tua distinção entre inculto e ignorante. Eu costumo dizer que somos todos ignorantes, fazendo apenas distinção entre curiosos e não curiosos.

Publicado por: LA-C às julho 30, 2005 12:27 PM

Luís,

Eu não fiz nenhuma sugestão de alteração da regra referendária!

Como escrevi na nota anterior, a regra referendária actual implica que pelo menos 26% do eleitorado deverá votar na proposta vencedora, quando ela é vinculativa.

Mas não concordo que baste essa expressão eleitoral para o referendo ser vinculativo. Por exemplo se 26 votarem 'sim', ninguém votar 'não' e 74 se abstiverem, acho que o referendo não deve ser vinculativo porque não fazemos puto de ideia sobre a apreciação de quase 3/4 do eleitorado sobre a lei em causa. E isso é grave.

A regra actual não encerra nenhum paradoxo, se aceitarmos que é necessária uma boa participação do eleitorado nos referendos populares.

Publicado por: Rui às julho 31, 2005 03:59 PM

“Eu não fiz nenhuma sugestão de alteração da regra referendária!”

Tens razão. Eu é que me aproveitei do teu argumento para o transformar numa lei que não teria os paradoxos descritos no texto.

“A regra actual não encerra nenhum paradoxo, se aceitarmos que é necessária uma boa participação do eleitorado nos referendos populares.”

Aqui estou em completo desacordo contigo. No segundo cenário descrito o texto (comparando com o primeiro) temos praticamente o dobro das pessoa a votar ‘sim’ e ninguém vota ‘não’, enquanto no primeiro cenário temos quase um empate entre o ‘sim’ e o ‘não’. De acordo com a nossa lei, os resultados do primeiro cenário descrito no texto principal são vinculativos enquanto no segundo não são. Se isto não é um paradoxo então não sei que seja.

“Por exemplo se 26 votarem 'sim', ninguém votar 'não' e 74 se abstiverem, acho que o referendo não deve ser vinculativo porque não fazemos puto de ideia sobre a apreciação de quase 3/4 do eleitorado sobre a lei em causa. E isso é grave.”

Desculpa, mas essa interpretação da abstenção é errada. Se as pessoas optaram pela abstenção, a única interpretação possível é que são indiferentes.

Além disso o que dizes não faz sentido. De acordo com o que defendes, se 26 pessoas votarem ‘sim’ e e 25 votarem ‘não’ o ‘sim’ deve ser vinculativo. Mas se essas 25 pessoas estiverem indiferentes e em vez de votarem não preferirem a abstenção então o ‘sim’ já não deve ser vinculativo? Mas que raio de regra é esta? Se houver mais pessoas a favor do ‘não’ então o ‘sim’ deve passar a ser vinculativo? Vais-me desculpar a rudeza, mas o que defendes não faz sentido nenhum.

Publicado por: LA-C às julho 31, 2005 04:26 PM

Luís,

Se partimos de concepções diferentes, chegamos normalmente a resultados diferentes. Claro que há horas felizes e, nesse caso, os resultados até coincidem e as nossas concepções de partida díspares não nos atrapalham no final.

Se nós discordamos que um referendo seja sempre vinculativo, ou que nunca o seja, então, nesse caso, implicitamente, temos de escolher uma taxa de abstenção tolerável.

A tua solução "intermédia" - a de que desde que a posição maioritária seja votada pelo menos por 26% do eleitorado, para o resultado ser vinculativo - significa que toleras uma abstenção de 74%.

Não é absurdo nenhum, claro, admitir esse nível de abstenção. Mas porque não admites como razoável 99% de abstenção?

Eu fico-me pelos 50% de abstenção admissível. E portanto acho a regra actual sensata.

Quais são as motivações da abstenção? Existem várias, com certeza. Não conheço nenhum estudo sociológico sobre esta matéria. Mas deve haver.

Não vejo nenhum paradoxo na regra referendária actual.

Publicado por: Rui às julho 31, 2005 10:56 PM

Rui
Eu não tolero nem deixo de tolerar determinados níveis de abstenção. Apenas quero um sistema que não levante paradoxos como os descritos. Para tal basta que a regra em vez de ser sobre o número total de votantes, seja sobre o número total de pessoas que votam na opção vencedora. A fronteira é irrelevante para a minha análise. E será sempre arbitrária, tal como é a fronteira de 50% de abstenção que defendes.

De acordo com o que defendes, numa população de 100 pessoas se 26 votam ‘sim’ e 25 votam ‘não’ o 'sim' deve ser vinculativo. Já se 26 votarem ‘sim’ e zero votarem ‘não’ o resultado não deve ser vinculativo. (e repara que eu não estou a ir para o caso extremo de uma votação de 49 a zero)

Ou seja, consideras que um resultado de 26 a zero é menos explícito do que um resultado de 26 a 25. Admito que seja uma questão de opinião, mas realmente se isto não é um absurdo não sei o que seja.

Publicado por: LA-C às julho 31, 2005 11:04 PM

Luís,

Se 25 pessoas votarem 'sim', 0 pessoas votarem 'não' e 75 pessoas se abstiverem, consideras que o voto maioritário (e unânime!) no 'sim' deve ser vinculativo?

...

Se 1 pessoa votar 'sim', 0 pessoas votarem 'não' e 99 pessoas se abstiverem, consideras que o voto maioritário (e unânime!) no 'sim' deve ser vinculativo?

Já me confudiste com as tuas ideias!

Publicado por: Rui às julho 31, 2005 11:19 PM

Caro Rui
Lamento desapontar-te com uma não-resposta, mas depois de eu ter dito que qualquer fronteira que se trace será sempre arbitrária, e como tal sem grande justificação teórica, pedes-me que defina uma fronteira? Não sei responder a essa pergunta. Deixo isso para os especialistas. Apenas gostaria que se criasse um sistema sem paradoxos facilmente evitáveis.

Publicado por: LA-C às julho 31, 2005 11:28 PM