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julho 30, 2005
Véspera
Encosto-me à véspera de partir. Sem rubros entusiasmos. De outras vezes até emoção salivava. Metamorfose terrível, melindrosa, agressiva... Mal se te toca, uma descarga de ignorada potência quilovática. Fazes gala. Ainda ontem... Ameaça infantil, estúpida: Se preferires, não irei contigo; faço-me um favor a mim e a ti... Como se não fôssemos gémeos univitelinos... Que culpa tem a Ilha de teus males de alma? − detonaste tu ou detonei eu, já nem sei. Referia-me à insuportável disposição com que tens vindo a cauterizar-me. Logo sobre mim se despenhou a catilinária arrogante de suspender a viagem. Ou de embargá-la por iliquidez afectiva. Se me fizesse tal ameaça, o contravapor seria: é para o lado onde durmo melhor, e choveriam palavras duras para haver escurecimento. Não desejo escurecer nenhum afecto. Nem me imagino na cama com outra Ilha. Se outra opção não houvesse, assumiria o golpe fatal. Mudava-me de cama e de Ilha! Ou a Ilha mudava-se de ti e de cama! Mais uma perda a juntar a tantas. Redundaria em morte? E depois? Não te tens ajustado à têmpera do aço acabado de ser caldeado na forja e batido na bigorna. Nem tão-pouco te prestas a analisar ou a sentir isto: que nem tu nem eu merecemos ser torpedeados por esta maneira tão absoluta de contracenar. Não ajo sempre assim. Apenas em crise de telurismo, telhudismo, cada vez mais assídua nesta idade de meia-luz. Quedo-me por aqui. Não vou enviar esta mensagem para nenhures. Nem muito menos lançá-la ao oceano numa morosa garrafa de SOS... Serviu-te apenas de desafogo. Ficaste leve e desagravado! Pensando melhor... Talvez passes pelos correios. Enfio-a num sobrescrito e envio-a a mim mesmo. Vais deleitar-te com o dano que a missiva te provocará quando amanhã o carteiro ta entregar e tu a leres de afogadilho. O que tu fazes para te provar que me amas ou te amas! Amanhã à noitinha vais zarpar ao meu encontro! Tomarás a lancha para me ires sentindo em cada hausto de vaga. Ao longo do mar verde e revolto sobre o qual, em vagalhão, ainda me esperas. Sempre me esperaste!
Cristóvão de Aguiar
Publicado por L. Aguiar-Conraria às julho 30, 2005 12:39 PM