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julho 30, 2005

A Ota e o TGV, ainda e sempre

O ministro da Economia, Manuel Pinho, publicou hoje um artigo de opinião no jornal expresso. Do que li, e apenas li o que estava disponível na "Grande Loja do Queijo Limiano", o texto pareceu-me digno de uma redacção de um aluno de licenciatura.

Piadinhas de mau gosto à parte (as minhas), o ministro defende as suas damas, a OTA e o TGV. Em todo o artigo, apenas apresentou dois argumentos relevantes:

1- Entre os países da OCDE, Portugal tem o valor mais baixo de "stock" de capital público.

2- Segundo um estudo de Marvão Pereira e Andraz, investimentos em infra-estruturas de transportes têm um forte efeito multiplicador na Economia.


O primeiro argumento é absurdo. A construção do aeroporto da Ota leva à desactivação do aeroporto da Portela. Ou seja, destrói-se "stock" de capital público. Falamos assim de um investimento monstruoso que terá um efeito líquido bastante reduzido no stock de capital público. Se o objectivo é aumentar o "stock", então que se invista em algo que não envolva destruição de "stock".

Quanto ao segundo... lamento mas, apesar de o ministro ter dito que o estudo estava disponível na net, não o consegui encontrar. Se alguém mo puder disponibilizar agradeço.

Apesar de não ter encontrado o estudo a que se refere o ministro, encontrei outros que o citavam. Sinto-me assim habilitado para dizer alguma coisa, se bem que sujeita a revisão.

Duas ideias transpareceram: primeiro, o estudo reflecte os investimentos realizados na década de 80 e 90. Em 80 as nossas infra-estruturas rodoviárias eram ridículas: é óbvio que qualquer investimento nessa época tinha um impacto enorme. Por exemplo, a auto-estrada Lisboa-Porto apenas foi concluída, salvo erro, na segunda metade da década de 80*. Tentar fazer analogias com a situação actual nem chega a ser demagogia é, pura e simplesmente, desonestidade intelectual. Segundo, Marvão Pereira e Andraz nada dizem de concreto sobre a Ota e o TGV. Fala-se genericamente em investimento público: o raciocínio poderia ser aplicado à construção de mais sete pontes sobre o rio Tejo ou de pontes a ligar as ilhas dos Açores.

Num artigo em que defende estas opções, o ministro não é capaz de referir um só estudo que seja verdadeiramente relevante para a questão. Mas ele pensa que está a construir um fontanário? Ou está apenas à espera que os estudos encomendados aos "boys and girls" estejam terminados?

Tanta insistência nestes projectos, tanta convicção, tanta vontade sem haver nada que a sustente levam-nos, naturalmente, a perguntar:

"A quem pertencem os terrenos envolvidos na operação do aeroporto da Ota? Desde quando?"

A resposta a esta pergunta do "Diário da república" talvez ilumine os nossos espíritos. Já agora, acrescento mais uma:

Quem se encarregará da urbanização dos terrenos da Portela?

* Diz-nos o leitor HFerreira que nem isso. Foi mesmo nos anos 90 que se concluiu a auto-estrada entre Lisboa e Porto.

Adenda
Já tive acesso ao artigo do jornal “Expresso”. Não mudei a minha impressão sobre o mesmo. Também consegui identificar o estudo citado. Foi publicado na Review of Development Economics, 9(2), páginas 177–196, 2005. Terei todo o gosto em enviá-lo por e-mail. Caso alguém esteja interessado, contacte-me.

Publicado por L. Aguiar-Conraria às julho 30, 2005 03:30 PM

Comentários

A Auto-Estrada Lisboa-Porto so foi terminada pouco antes das eleições legislativas de Outubro de 1991. Lembro-me porque ja morando no Porto viajei de Lisboa no dia das eleições.

Publicado por: HFerreira às julho 30, 2005 06:50 PM

Gracias, ja acrescentei a informacao.

Publicado por: LA-C às julho 30, 2005 06:59 PM

A A1 foi inaugurada a 13 de Setembro de 91, Sábado.

Publicado por: MFS às julho 30, 2005 08:09 PM

Caro Luís
Se não for pedir muito agradecia me enviasse o artigo.
Um abraço
Barata

Publicado por: Nuno Barata às julho 31, 2005 06:20 PM

O vácuo, pois então. Ou então o contário, significativo

Publicado por: jpt às agosto 1, 2005 07:12 AM