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julho 31, 2005
Segunda-feira, 1 de Agosto
(continuação)
Aprender sem custo só existe na publicidade enganosa. Do mesmo modo que aprender línguas ou outra ciência, ofício ou arte qualquer, sem mestre e em trinta dias, é um insulto à mais humilde inteligência! Porém, numa época de pressa e de facilitismo como a nossa, e num país com mais telemóveis do que habitantes (antes haver mais vacas do que habitantes, como é o caso das Ilhas), as coisas e as pessoas destinam-se a ser utilizadas o mínimo possível para logo a seguir se deitar fora. O mercado assim o exige. E proclama-se aos quatro ventos que tudo é acessível e pouco ou nada custa a adquirir.
Pense-se no crédito de habitação ou no de férias (a degradação chegou longe de mais e ninguém põe um travão a tal indecência), na obtenção de um curso médio ou superior. Qualquer deles se pode tirar sem sair de casa. Basta preencher um formulário que, se for difícil, pode ser completado por um familiar mais idóneo! Parafraseando alguém, dir-se-ia que o mal da maioria dos diplomados é não ter a basezinha sólida bem tirada na primeira escola, essencial para que a restante vida académica fique bem escorada!
Claro que estou exagerando! Mas será através da caricatura que havemos de compreender melhor este intrincado social e económico em que vivemos. A vida resume-se a uma alegria pegada! Maior ainda do que a alegria salazarista concentrada na FNAT (Federação Nacional para a Alegria no Trabalho), que a geração de 60, em Coimbra, num cartaz de um cortejo de estudantes, apelidou, em letras garrafais, de Famintos Nacionais Agarrados ao Tacho...
Basta atentar na publicidade que preenche os mais demoníacos meios da comunicação social e nos entra em casa em forma de aguilhão fincado no flanco. E ouvimos até ao vómito: deve-se aprender brincando para que traumas não existam, e deve-se trabalhar fazendo de conta, e viajar pagando mais tarde, e tirar o curso estudando depois, e comprar automóvel sem ter com quê, mas é já a seguir que virá o crédito de determinada instituição bancária que só nasceu para cuidar do bem-estar dos futuros encalacrados sem custo, ou melhor escrevendo, sem apelo nem agravo.
Vejamos alguns exemplos de verbos regidos por preposições. O verbo arrepender (-se) pode pedir as preposições de ou por, depende da construção que se utiliza, e o verbo acusar exige a preposição de: Perante o Juiz e os advogados em pleno tribunal, o réu confessou-se arrependido do crime de que era acusado, ou arrependeu-se por ter cometido o crime de que era acusado. De que crime era o réu acusado? Abuso de menores... Do mesmo modo, o verbo apelar, que se usa muito e em cuja construção pouco se acerta, pode exigir três preposições diferentes, consoante a construção que se adopta: as preposições a, para e de.
É evidente que, na maioria dos casos a tender para a totalidade, apenas se ouve ou se lê o emprego da preposição a. Os trabalhadores apelaram ao patronato, etc. e muita coisa, até à náusea final! Para pôr um pouco de ordem nesta desenfreada indisciplina, temos: “O nadador aflito apelou aos veraneantes que estavam na praia para que o socorressem (fez apelo aos...); insatisfeito com o resultado do julgamento do seu constituinte, o advogado apelou para o Tribunal da Relação, ou: Insatisfeito com o resultado do julgamento do seu constituinte, o advogado apelou da sentença. Assim, fazer apelo a; apelar a alguém para que auxilie outrem; apelar da sentença. (continua)
Cristóvão de Aguiar
Publicado por L. Aguiar-Conraria às julho 31, 2005 02:43 PM
Comentários
O Comércio do Porto ainda vive. Leiam-nos em ocomerciodoporto.blogspot.com
Publicado por: Anonymous às julho 31, 2005 06:47 PM
"Fazer" uma medicação, "fazer" um medicamento - dizia há dias um médico, na televisão. Que raio de gíria, não?!
Publicado por: Anonymous às agosto 3, 2005 08:09 PM