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novembro 10, 2005

Para que não me esqueça V

Mathis, outro dos meus grandes amigos. Alemão, um metro e noventa e cinco, louro. Usava óculos. Cabeça pequena como uma pequena lâmpada inacessível num candeeiro de pé alto.

Por várias vezes senti que carregava o peso da história, nunca tendo evidenciado qualquer orgulho em ser alemão. Uma vez perguntou-me se eu, como europeu, estava disposto a partilhar o peso histórico do holocausto. A nossa história é comum. Também perseguimos judeus e agrilhoámos milhões de africanos. A história alemã é mais recente. Só isso.

A má imagem dos alemães desvaneceu-se. Tornou-se num companheiro de squash. Ganhava quase sempre. Durante um semestre, namorou em segredo com a AJ. Partilhámos casa até me vir embora. No fim do primeiro ano, descobriu que a mãe tinha um cancro, já em estado bastante avançado. No fim dos exames, regressou à Alemanha. Acompanharia a mãe nos seus últimos dias.

A quimioterapia correu melhor do que o esperado. No segundo ano, Mathis voltou de cabeça limpa; a mãe tinha sobrevivido. Já no terceiro ano, o mesmo cancro dá sinal de si. O corpo não reage aos tratamentos. Usam a mãe como cobaia num novo tratamento. Perdeu o cabelo, o paladar, o amor-próprio. Quando estava pronta para desistir, as análises vieram prometedoras. Tudo tinha corrido bem. Renascia

No quarto ano, numa consulta de rotina, desconfiaram de algo novamente. A senhora tinha um novo cancro. Completamente independente do anterior. Dois tumores no cérebro. O Mathis voltou à Alemanha e lá continua. Esperando.

Publicado por L. Aguiar-Conraria às novembro 10, 2005 06:25 PM

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Comentários

Nós somos duas açorianas que precisam do vosso apoio. Que tal uma link. Muito Obrigado. Flumfi Productions

Publicado por: Flumfi Productions às novembro 11, 2005 12:14 AM

Que história impiedosa!

Publicado por: Cláudio às novembro 11, 2005 05:29 PM

Luís,
Vejo que, durante esses anos, o vosso grupo teve algumas preocupações por motivos de saúde (ou falta dela). O Mathis, então... Até dói, só de pensar na angústia por que ele passou e passará, ainda.
Abraço.

Publicado por: DespenteadaMental às novembro 11, 2005 05:49 PM