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março 15, 2006

Os Lugares da Escrita ou Quem é Mestre de Quem (versão integral)

Cristóvão de Aguiar

A minha emi­gração não foi tão inteira como a de meus pais, avós e outra parentela mais ou menos chegada: um ilhéu a tempo par­cial ou inteiro tem sempre alguém que o pro­longa e o repre­senta no lado de lá do mar. A emi­gração que empreendi teve um cariz metafórico, como convém a um escri­tor, passe a imo­déstia, o que não quer dizer que tivesse sido menos real e menos penosa. José Régio sin­tetizou num verso, uma situação que se pode aplicar a este e a outros casos, tal o poder da genuína poe­sia: “Tenho dentes pos­tiços com cárie de verdadei­ros...”

Da Ilha levantei ferro encolhido num camarote de terceira, o rumo tra­çado a Coimbra. E como os emi­grantes deveras, tam­bém não fui capaz de cortar o cordão umbili­cal que a ela, Ilha, para sempre me enleou. Poder-se-á afirmar que emigrei para dentro, e este “den­tro”, no decurso da vida, veio a ter uma sig­nifi­cação física e psi­cológica. Da física, toda a gente se aper­cebe mal abro a boca. Nota-se logo que faço parte da diver­si­dade que veio confe­rir unidade à casa bem arru­mada da nossa língua.

Aqui­lino, em cuja obra me enfronhei no mato da Guiné, durante os anos da guerra colonial, escreveu que “o portu­guês, dadas as pequenas dimensões do território metro­politano, é único, uniforme ageográfico; à parte a corrup­tela prosódica, fala-se em Melgaço como em Vila Real de Santo António”. Fer­nando Pessoa disse que a Língua Portuguesa era sua pátria: A minha Pátria é a Língua Portuguesa, tomando a expressão de emprés­timo a Eça de Queirós, da Correspondência de Fradique Mendes. E Vergílio Fer­reira, com outra origi­nali­dade, escreveu: “Da minha língua vê-se o mar”...

Transporto na pronúncia um tom meio alente­jano, meio algar­vio, tendo algumas palavras que utilizo, sobretudo na escrita, um aspecto cas­tiço de português arcaico, mais o u de Niza, de Cas­telo de Vide e de Castelo Branco, que há séculos emigraram (sem­pre a emigração) para a Ilha e por lá foram sobre­vivendo, sozinhas, sofrendo as arreme­tidas de ven­tos e marés (nessa altura ainda não existiam políticos tontos que tinham por lema ser contra ventos e marés...), de abalos e erup­ções, mas conservando os valo­res ancestrais ou matriciais. Nunca rene­garam a sua origem, antes dela se orgu­lham, pois nunca fizeram parte do léxico corrompido da FLA...

Quando cheguei ao Continente há mais de um carro de anos, como diria Aquilino, alguns per­guntavam-me se eu não era alen­tejano de gema. Tam­bém havia quem não entendesse patavina do que de minha boca saía! E ainda vai havendo quem continue...

Que terá tudo isto a ver com os lugares da escrita -- ou com as influências literárias recebidas na altura em que o discípulo pre­cisa de mestre, ou de mestres, como pão para a boca, na mira de construir o seu estilo -- ou com a criação literária e a maneira como cada escritor procede no interior do silên­cio que ela exige?

Anda tudo tão ligado! Mencionei escritores e alguns luga­res. Aqui­lino, Vergílio Ferreira, Eça de Queirós, José Régio, Miguel Torga... Falta ainda trazer Manuel Alegre, cuja Praça da Can­ção me temperou e for­taleceu o ânimo durante os dias seculares da guerra colonial. E eis as princi­pais fon­tes portu­guesas onde bebi e conti­nuo bebendo, deliciado. Nunca nenhum destes escritores me desiludiu, nem nunca deixei de apren­der com as suas obras nas releituras que delas vou fazendo sem­pre que posso. Outras nas­centes have­ria a referir, poetas e roman­cistas que amei e de quem conti­nuo gostando, que leio e por vezes releio, mas deles não recebi influências marcantes. Há de facto uma altura própria para a aprendi­zagem nuclear e essa idade há muito já se escapu­liu para terras de mourama. Haverá outros escritores e poetas cujas obras enve­lheceram tanto, que me pergunto como fui capaz de os ter lido e de deles ter gos­tado. As releituras compor­tam por vezes peri­gos incal­cu­láveis! Continuo, porém, a embe­vecer-me com algum Júlio Dinis e com quase todo o Camilo...

Quanto aos locais por onde passei e vivi, referi-me à Ilha, com maiús­cula, para mim uma entidade mítica; ao Pico da Pedra, local dos crimes cometi­dos na in­fância e adoles­cên­cia, o lugar de onde, como diria Torga; a Coimbra, cidade que adoptei e onde as len­das flores­cem tão naturalmente como as lêndeas nas cabeças de certos len­tes; à Amé­rica, que pertencia ao sonho da meninice; à Guiné, que ainda me zurze em pesa­delos... Terão sido todos lugares de escrita?

Na infância, à roda dos meus oito, nove anos, tive a sorte de, ao serão, ouvir ler durante anos a Bíblia, que meu Pai ritua­lizou em leitura diá­ria. Nessa altura, os protestan­tes, como então eram designados, vieram da cidade para a fre­guesia em mis­são evange­lizadora, e introduzi­ram, em certos lares, o gosto pela leitura do livro dos livros. Longe estava eu de adivinhar que a Bíblia, cujos capítulos e versículos todas as noites escu­tava pela voz de meu Pai, não só era impor­tante do ponto de vista religioso, como, prin­ci­pal­mente, do ponto de vista literá­rio, ao ponto de, muitos anos mais tarde, já aluno da Faculdade de Letras, ter ouvido da boca de Paulo Quintela que as raízes da Lite­ratura Oci­dental ali se deviam ir bus­car. E não admitia que aluno seu a não tivesse lido; caso contrário, podia ser enviado para o lugar, após tempo infinito de prova oral.

Na juventude, ainda na Ilha, Eça e mais Eça, quase até à exaustão. Aos dezassete, dezoito anos, principiou a borbulha da escrita a comichar. E os textos que eu ia publicando nos jornais da Ilha, em prosa e verso, traziam a marca do último livro que tinha lido. Escrevia versos à Junqueiro, isto é, junqueirava-me, como diria Alexandre O´Neill; em prosa imitava com despu­do­r Eça de Quei­rós. A leitura intensiva e repetitiva da obra do pobre homem da Póvoa de Varzim constituía do mesmo passo um benefí­cio e um prejuízo. Benefício, porque estava de facto a ali­cerçar-me nos caboucos sérios da obra de um dos melhores escritores da Língua Portu­guesa; prejuízo, porque, mal tentava mudar de escritor a fim de variar a lei­tura e alargar horizontes, deparava-me com a grande chateza da prosa do livro que ence­tava e logo o punha de lado, que sem­pre fui mais atento ao como se escreve do que ao que se escreve. Só com Aqui­lino, primeiro, e com Miguel Torga, depois da guerra colo­nial, é que tudo havia de modificar-se. O beirão, mais esparra­mado na sua prosa suculenta e luxuriante, cheia de res­sonâncias clássi­cas; o trans­mon­tano, muito mais contido na sua escrita enxuta e des­car­nada até ao tendão. Com ambos aprendi. E tam­bém com Vergílio Fer­reira, considerado durante muito tempo por alguns críti­cos neo-rea­listas um escritor menor. Nas páginas da sua obra, a partir de Mudança, soprava a angústia existencial, sar­triana, ser­vida pela sim­pli­cidade de uma escrita de frase curta e incisiva, que não dos pro­ces­sos narrativos utili­zados, o que para o espírito neo-realista consti­tuía um pecado mais que mortal. A partir do seu romance Para Sem­pre, espécie de epítome de toda a sua obra anterior, tornou-se-me indis­pen­sável revisitá-lo regu­lar­mente, sobretudo depois de ler a sua Conta Corrente, onde, não raro, reflecte sobre a criação literária em geral e sobre a sua pró­pria, em particular. O que vem ilu­minar muitas das obscuri­dades que a sua obra sus­cita, principalmente a escrita antes de Para Sempre. Atente-se neste excerto da Conta Corrente II, p. 264, em que se refere à construção do romance Para Sempre: “De vez em quando o meu novo romance ilu­mina-se-me no ar. Vejo-o, tenho a sua apa­rição. Depois, a visão des­va­nece-se. Os mesmos factos, os mes­mos pormenores, não sei que desencanto os arrefece em inu­tili­dade. São exactamente os mes­mos e são outros. Como se uma figura de beleza fosse de repente de cera. Um manequim postiço, uma coisa mate­rial. Em todo o caso. Sei que o livro há-de ser a pro­cura da palavra virgem e irra­diante, a última, a primeira e essen­cial, a que subjaz a todo o falatar moderno e é a forma de instau­rar o mito que nos ordena a vida. A palavra que está antes e depois da politiquei rice, da reli­gião, da própria arte - e que fale no silêncio que alastra à volta do vazio palrador. A palavra inau­dível e desco­nhe­cida, a do regresso ao silêncio verdadeiro, ao outro, ao das ori­gens.”

Três são os meus lugares de escrita: Coimbra, a Ilha, a Amé­rica. Sempre gostei das trilogias. A trindade em que os três espa­ços se consubstanciam num só, uno e indi­visível. Do mesmo modo que do amor do Pai pelo Filho surgiu o Espírito Santo, assim do afecto entre mim e não sei que entidade nasceu a memória afectiva, síntese luminosa dos três lugares. Por seu turno, ela materializa-se na Ilha-mulher, ou na Mulher-ilha, às vezes mais Ilha, outras mais Mulher... Sempre que a escrita me chama, ins­talo-me com os apetre­chos necessá­rios: o com­puta­dor, a maior bênção da tecnologia que sobre mim desceu. Na América, escrevo assim: “as horas são mais espa­çadas. Nota-se na atmos­fera um silêncio ex­pec­tante. Se está prestes a nevar, fica a Natu­reza toda enco­lhida. Tudo se aquieta à espera. Como na escrita. Principia por se abrir um ins­tante leve­dado de silên­cio. Con­densa-se, depois, em fláci­dos flocos de palavras, e mui de­va­gar cobrem e fecundam a mor­talha da pá­gina [...] Tenho ido ao cemitério regar as flores que plantei na cabeça de meu Pai. Sento-me de­pois na relva, escru­pulosa­mente aparada, e isto, pare­cendo que não, faz-me colo­car alguns senti­men­tos, ainda enlagrimados, nos seus sítios certos” [...] Em Coim­bra: “Corria Outu­bro nas calhas de um Outono embria­gado de cores e eu, que desembar­cara com um cheiro intenso a mare­sia ape­gado ao corpo, lembro-me de me ter sentido à deriva nesta ampli­dão de terra e só terra. Um dia des­co­bri um estratagema para tentar iludir a retina. Passei a humede­cer o horizonte que a vista abarcava. Nas noites em que os sinos do peito dobravam a fina­dos, pegava de mim e ia até ao Penedo da Saudade, o lugar mais que comum da lamechice român­tica e aca­démica de inú­me­ras gerações que por Coimbra passaram, dando ais e suspi­ros, alguns com métrica e rima, outros com música exa­lando-se de guitarras doi­das de doí­das, ou vice-versa. Entrava eu naquele santuário, não para acres­centar mais um verso aos muitos que por lá andam lapidados, mas ape­nas para alargar os olhos pela encosta da serreta defronte, a do Picoto. Enchia-se de luzes mal semeadas. Em determinado ponto, a meio da ver­tente, havia um renque delas tão simé­trico, ou seria eu que lhes dava simetria, por uma pena igual às luzes da doca da Ilha. Por lá me deixava ficar até sentir o fole do peito repleto do fortís­simo aroma de uma vazante ins­talada no segredo da lem­brança. E anda uma criatura nesta constante doba­doira: ora está no Penedo, com as agulhas de marear, pro­cu­rando a Ilha que se sumiu, ora na Ilha, em busca da re­cordação que dela teve em outro local longínquo. Na Ilha, mais outrora, como se segue: “Tudo já me parece mal. O clima, as pes­soas que já vão dei­xando de caber no meu afecto, a casa húmida de não estar habitada. Depois, começam já os espec­tros a perse­guir-me [...]. Vou ao cemitério e vejo na campa da família os retratos de meus Avós e de meus tios [...] Vasculho a memória e vejo meus Irmãos e meus tios e não sei quem mais, ausentes para as terras da emigra­ção. Por isso, só estou bem indo [...] A fregue­sia onde nasci ostenta ainda, muito vi­vas, as pegadas da minha via-sacra. Nela, não consigo nem a paz nem o sossego por que tanto an­seio [...]

São assim os ilhéus. Não conseguem pôr pé em ramo verde. Por isso, afirmei no início que ser ilhéu era ter um destino, já não digo ruim, mas o seu tanto ou quanto intrincado!

Publicado por L. Aguiar-Conraria às março 15, 2006 09:29 AM

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Publicado por: Adriane às março 25, 2006 08:55 PM