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março 18, 2006

O frio e a disforia

O frio retor­nou para que se apague a memória de uma primavera breve aboletada na paisagem de dentro durante algum tempo, nem me apeteceu sair, havia-me deitado às duas da manhã, mas, às sete e meia, já estava fora de len­çóis, com o verso de Ál­varo de Campos a saltar-me na ponta da língua: “Ai, como é bom não cumprir um de­ver...” e dei­xei-me levar por uma voz interior que me aconselhava a que fal­tasse a todos os meus compromissos; meu dito, meu feito, peguei do telefone e avisei que não estava disponível; alívio, mas também uma forma hábil de me vincular à de­cisão tomada, caso contrário poderiam surgir arrependi­mentos de última hora, nunca se sabe do que é capaz a cons­ciência se atacada de escrúpulos mora­listas, nem com­pareci ao almoço da tertúlia, para que a minha reclusão fosse completa e fecunda; tinha ainda bas­tante sopa de agrião, feita na segunda-feira à noitinha, além de fruta, queijo fresco e pão no congelador, tudo em quantidade bastante para enfrentar alguns dias de clausura sem passar grande fome; há pouco, saí, já o merecia, preci­sava esten­der as pernas perras e tomar um chá, a cabeça pare­cia uma arredouça e estava em calda, os olhos areados de tanto olhar para o computa­dor; fui então dar uma pequena volta nas imediações, pouco me demo­rei, mas vim mais are­jado e com o corpo mais solto, sempre que me encontro em cio de escri­ta, gosto de me trancar no casulo a pensar e a lidar só com ela, nada mais existe à minha volta, daí a incompa­tibilidade do trabalho criativo com o prático ou profissio­nal, mas também não sonho, nunca sonhei, em dedicar-me, a tempo inteiro, à escrita, criar-me-ia muitos problemas insolúveis e decerto o desejo de regressar à cadeia anterior, se fizesse o balanço deste dia inteiro só dedi­cado aos meus papéis teria de chegar à conclusão de que não havia sido positivo, pelo menos no que res­peita ao que sinto em rela­ção ao que hoje escrevi e mesmo ao já vinha do antece­dente; anteontem e ontem, gostei muito mais do que li (ao contrário de alguns escritores, gosto, e não prescindo, de ler e reler e reescrever sempre o que fica para trás), até cheguei a vibrar com alguns passos que escrevera ou rees­crevera, mas, neste instante, tudo me parece insonso, sem melodia, mal escrito, chei­rando a ranço, basta dizer que ontem tinha mais de vinte páginas que eu consi­derava definitivas, agora, com a monda, ema­greceram para cinco, mas continuo descon­tente comigo e com elas, sobretudo com o que fiz, e para que me meto eu em altas cavalarias? por que me isolei nestas quatro pare­des em dedicação exclusiva? tenho agora o pago, é por isso que não consigo desfrutar do prazer de três cigar­ros ou duas cachimbadas por dia, tive de deixar o vício, queria sempre mais, e depois, em vez de prazer, sobrevinha-me a náusea, com a escrita também se passa o mesmo, nunca acerto com a justa medida, ontem a euforia, hoje a disforia, deve ser do frio – que me pariu! 

Cristóvão de Aguiar

Publicado por L. Aguiar-Conraria às março 18, 2006 06:29 PM

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Comentários

Gosto de ler o que escreves. Vou ficar cliente.

Um abraço.

Publicado por: http://multimilionario.blogspot.com/ às março 18, 2006 08:19 PM

continua a chuver...

e eu vou para o campo

A metamoforse do Inverno em Primavera já é bem evidente para aqueles de nós atentos ao florir das amendoeiras, à luz do sol poente e ao estremecer dos bosques. Não tardará ao cuco anunciar o que até os insectos rastejantes sob as rochas indolentes sabem.

Para nós, os de coração de andorinha, está na hora de migrar..."O campo é onde não estamos. Ali, só ali, há sombras verdadeiras e verdadeiro arvoredo."(Bernardo Soares)

Publicado por: pepe às março 20, 2006 05:38 PM


"Por que me isolei nestas quatro pare­des em dedicação exclusiva?"

Ao ler estas palavras não pude deixar de recordar "Aurora Boreal", de António Gedeão:

Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
(....)
Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.


Publicado por: Sandra às março 29, 2006 09:52 PM