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abril 27, 2006

Um exemplo de pedagogia romântica e construtivista…

PJ, leitor habitual da destreza, envia-nos "Um exemplo de pedagogia romântica e construtivista…"

“A experiência e o método científico podem ser ensinados em muitas matérias além da ciência. Daniel Kunitz é um amigo meu desde a universidade. Tem sido um professor inovador de Ciências Sociais do ensino secundário. Queremos que os alunos compreendam a Constituição dos Estados Unidos? Podemos mandá-la ler, artigo por artigo, e depois analisá-la na aula − mas, infelizmente, isso iria pôr a maior parte dos alunos a dormir. Ou então podemos tentar o método de Kunitz: proibir os alunos de ler a Constituição, e, em vez disso, incumbi-los da tarefa de, em grupos de dois, representarem cada um dos estados numa convenção constitucional. Explicamos em detalhe, a cada uma das treze equipas, os interesses particulares do seu estado e região. Por exemplo, à delegação da Carolina do Sul falaríamos do primado do algodão, da necessidade e da moralidade do tráfico de escravos, do perigo que representa o Norte industrial e assim por diante. As treze delegações reúnem-se e, com uma pequena orientação do professor, mas fundamentalmente por si próprias, escrevem uma Constituição ao longo de algumas semanas. Depois lêem a verdadeira constituição. Os alunos tinham reservado para o presidente o poder de declarar a guerra. Os delegados de 1787 atribuíram-no ao Congresso. Porquê? Os estudantes tinham libertado os escravos. A Convenção Constitucional original não o fez. Porquê? Isto exige uma maior preparação por parte dos professores e mais trabalho dos alunos, mas a experiência é inesquecível. É difícil não pensar que as nações da Terra estariam em melhor situação se todos os cidadãos passassem por uma experiência semelhante.”

Autor do texto: Carl Sagan, um dos heróis intelectuais do Professor Nuno Crato (Um Mundo Infestado de Demónios, 1997, pp. 325-326).

Editora do livro: Gradiva, de Guilherme Valente, que ainda ontem assinou mais uma das suas prosas contra o eduquês no jornal Público.

Conclusão: o vírus do eduquês é muito mais contagioso do que se possa pensar. Ataca as mentes mais brilhantes e os seus efeitos ultrapassam a barreira dos “pedabobos”…

Publicado por L. Aguiar-Conraria às abril 27, 2006 05:35 PM

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Comentários

Luis, desculpa, mas sinceramente nao percebi. Qual era o objectivo da publicaçao deste texto? E da tua 'conclusão'?

Publicado por: Hugo Mendes às abril 27, 2006 05:40 PM

Não é meu, é do PJ.

Publicado por: LA-C às abril 27, 2006 05:46 PM

Ah, ah, ironia sublime, PJ! Give me five! ;o))))

Publicado por: DK às abril 27, 2006 06:12 PM

Entao 'isto' é um exemplo de pedagogia 'romântica e construtivista'? Porque é que a 'autoridade do professor' e o 'uso da memoria' têm, necessariamente, que ser postas em causa num exemplo como este?

Publicado por: Hugo Mendes às abril 27, 2006 06:22 PM

Entao 'isto' é um exemplo de pedagogia 'romântica e construtivista'? Porque é que a 'autoridade do professor' e o 'uso da memoria' têm, necessariamente, que ser postas em causa num exemplo como este?

Publicado por: Hugo Mendes às abril 27, 2006 06:22 PM

Deduzo daqui que PJ acha que Nuno Crato condenaria a experiência descrita no texto de Karl Sagan, por lhe chamar "Um exemplo de pedagogia romântica e construtivista…"
Eu não falo pelo Nuno Crato, mas concordo com a maioria do que ele escreve no livro, o que não me impede de gostar e apoiar iniciativas do tipo desta experiência.
Pelos vistos não nos entendemos. Estamos a falar de coisas diferentes.
Tornar o ensino mais apelativo não é condenável, muito pelo contrário! O que é condenável, é substituir o ensino pelo "só" apelativo...
Eu sei de casos dum daqueles cursos de formação em que os licenciados desempregados são obrigados a assistir, onde têm de ouvir falar de assuntos que não lhes interessa minimamente e em que o director do curso, para não perder os clientes/alunos sugeriu aos docentes que fossem dar aulas para um jardim ou fossem fazer umas "visitas de estudo"... Ou seja, umas actividades lúdicas que SUBSTITUIAM as aulas.
No caso do texto, os alunos tiveram um modo agradável de aprender a Constituição, representando. Mas aprenderam! Isso é que interessa. E provavelmente ficaram a gostar do assunto. Excelente! Mau seria, que partindo do princípio que ler a Constituição era chato, se resolvesse fazer uma representação qualquer que fosse agradável aos alunos e no final eles ficassem sem saber nada da Constituição.
Há uma grande diferença!

Publicado por: homoclinica às abril 27, 2006 06:41 PM

E, já agora, aqui fica um dos raros exemplos de pedagogia "romântica e construtivista" na universidade, noticiado n'O Canhoto. "Pedagogia Democrática na Universidade" http://ocanhoto.blogspot.com/2006/04/pedagogia-democrtica-no-ensino.html

Olhem se a moda pega com Bolonha, que perigo! :oP

Publicado por: DK às abril 27, 2006 06:55 PM

Estou de volta.
Este texto que o PJ mandou é sublime.
Sublime porque, como muito bem diz PJ, Carl Sagan é um dos heróis intelectuais de Nuno Crato e, tal como Nuno Crato, distinguiu-se também como excelente divulgador (em escalas diferentes, naturalmente).
Penso que assim fica completamente arrumada a argumentação que atribuia intenções horríveis ao Nuno Crato, correcto?
Já agora, vou pôr no ar outra citação, para se perceber exactamente o que Nuno Crato contesta. Dêem-me 5 minutos para encontrar o texto que pretendo.

Publicado por: LA-C às abril 27, 2006 07:15 PM

Cara Homoclínica:
Se entende que o exemplo que Sagan cita configura somente uma tentativa de tornar o ensino mais apelativo, então só posso concluir que realmente os nossos conceitos de educação e aprendizagem são tão distantes que não existe sequer uma base comum para discussão.
Concordo consigo num ponto, todavia. Quando se fala em ensino tem que necessariamente falar-se em aprendizagens. Teremos, todavia, de definir com exactidão que aprendizagens pensamos, porque aqui, mais uma vez, poderemos estar a usar a mesma palavra para significar conceitos diferentes.
A este respeito cito António Nóvoa, um dos tais especialistas das Ciências da Educação, que recentemente foi eleito reitor da Universidade de Lisboa (eles estão em todo o lado como acontece ao personagem do filme de John Carpenter, They live, conhece? http://www.theofficialjohncarpenter.com/pages/themovies/tl/tl.html):
"Mas a escola não pode tudo. E, por isso, parece-me imprescindível que ela se reencontre como organização centrada na aprendizagem. (…). Pretendo (…) valorizar uma educação escolar preocupada fundamentalmente com a aprendizagem dos alunos." E vid ente mente, 2005, Asa, p. 17
Quem diria? Um pedagogo a dizer uma coisa destas…Já não sei o que pensar!
Neste precioso livro de História da Educação demonstra-se, com um notável rigor argumentativo, que o discurso da decadência educativa não é novo. Veja estas duas frases:
"Em Portugal, o aluno sai da escola primária um verdadeiro ignorante." Albano Ramalho, 1909
"É manifesta a falta de preparação que os alunos dos liceus apresentam ao ingressarem nos estudos superiores; deficiências de conhecimentos científicos e de desenvolvimento mental." Eusébio Tamagnini, 1927, que, curiosamente, foi Ministro de Instrução Pública de Outubro de 1934 a Janeiro de 1936.
E se ler o livro O Nível Educativo Sobe, de Christian Baudelot e Roger Establet, que se encontra publicado entre nós pela Porto Editora, encontrará frases parecidas com estas, adaptadas ao contexto francês, datadas de meados do século XIX!! Isto dá seguramente que pensar ou não?

Publicado por: PJ às abril 27, 2006 09:06 PM

A discussão está gira, mas sabem duma coisa? Quando comecei a dar aulas, já lá vão 11 anos, deixei de lado todas as teorias, e aprendi com os alunos e com a minha experiência própria, para além das experiências de outros colegas, como deveria ensinar. É claro que também li algumas coisas, para obter ideias novas, houve uma evolução ao longo de todo este tempo. Também descobri o quão diferente é dar aulas no ISEP, no ISCAP ou na Faculdade de Economia da UP, locais onde leccionei (as duas últimas em colaboração enquanto docente do ISEP). Os alunos são diferentes: no ISEP tinha sempre ruído durante toda a aula, na Fac. Economia havia tanto silêncio que até se houvia os passarinhos lá fora. Mas todos, sem excepção, ficavam maravilhados, quando eu fazia rapidamente um multiplação do género 422 x 5 = 2110, e lhes explicava que era fácil de fazer, pois multiplicar um número por 5 é o mesmo que dividir por 2 e multiplicar por 10, logo 422/2 = 211 (conta fácil de fazer) e 211 x 10 = 2110 (ainda mais fácil). Será tão complicado fazer os alunos interessarem-se por coisas tão simples, em vez de achar que eles não podem cansar as cabecinhas e que deveriam pegar na máquina de calcular e digitar '4', '2', '2', 'x', '5', '='? O que eu acho que está mal, como em tudo no nosso país, é que é tudo 8 ou 80. É preciso começar a ver que nem tudo estava errado anteriormente e que nem tudo está certo actualmente. Espero que nunca voltem as reguadas à escola (eu apanhei mais de 100 durante a primária), mas gostava que os alunos de hoje em dia soubessem, pelo menos, as tabuadas do 2 e do 10. Assim, por inerência, sabiam a do 5. ;-)

Publicado por: Jorge Morais às abril 27, 2006 10:45 PM

"O que eu acho que está mal, como em tudo no nosso país, é que é tudo 8 ou 80."

Precisamente. Concordo contigo.
Já agora, numa aula de econometria, a determinada altura eu disse que 3 a dividir por 10 era 0,3. Reparei que um aluno foi à máquina confirmar. Perguntei-lhe se estava certo, e ele respondeu que sim. Depois, para o espantar ainda mais, disse-lhe que 3 a dividir por 100 era igual a 0,03. E disse-lhe para confirmar na máquina. O aluno confirmou (imagino que maravilhado com a minha capacidade de fazer contas de cabeça).

Publicado por: LA-C às abril 28, 2006 08:57 AM

Já agora, numa aula de econometria, a determinada altura eu disse que 3 a dividir por 10 era 0,3. Reparei que um aluno foi à máquina confirmar. Perguntei-lhe se estava certo, e ele respondeu que sim. Depois, para o espantar ainda mais, disse-lhe que 3 a dividir por 100 era igual a 0,03. E disse-lhe para confirmar na máquina. O aluno confirmou (imagino que maravilhado com a minha capacidade de fazer contas de cabeça). - LA-C

Fantástico.

E eu que não fui para economia, porque era mau aluno a matemática...afinal, até poderia ter grande futuro nessa área.:)

Ps: o LA-C gostaria de ver alguns professores meus de direito a fazerem contas. Metem os pés pelas mãos. É difícil um aluno não se rir, porque se trata sempre de contas básicas que se fazem de cabeça (por exemplo, saber quanto são 60% de 30.000 Euros). Lá está, aprender a tabuada de cor na primária não resolve todos os problemas dos portugueses com a matemática.:)
Posto isto, acho que o mal é o de uma cultura em que as pessoas se sentem orgulhosas de não saber matemática e quase que interiorizam um certo desprezo pela mesma. Contra mim falo.:)

Publicado por: José Barros às abril 28, 2006 07:53 PM

PJ, vou-te contar uma história.

Um professor de estatística disse aos seus alunos de um curso de pós-graduação para fazerem a seguinte experiência: atirarem uma moeda ao ar uma data de vezes e anotarem o resultado numa folha de papel. Mas, para além disso, os alunos que assim o decidissem anotariam resultados inventados por eles e não os verdadeiros resultados obtidos ao lançarem a moeda. A única regra era natural: os que inventassem resultados deveriam fazê-lo de modo que os resultados inventados parecessem tão aleatórios quanto os que resultavam realmente do lançamento de uma moeda. Em seguida, o professor pegou nos papéis e começou a dizer a cada aluno se os resultados que tinha descrito eram verdadeiros ou inventados, com uma taxa de sucesso de quase 100%. Ele fez isto para deixar claro que nós, seres humanos, temos uma fraca capacidade de simular acontecimentos aleatórios e também usou isso como ponto de partida para ensinar uma série de coisas sobre estatística.

De onde é que eu conheço esta história? Foi contada pelo Nuno Crato no lançamento do seu livro, a título de exemplo de bons métodos pedagógicos.

Sugestão: liga ao que ele realmente defende e não a chavões.

Publicado por: José Carlos Santos às abril 29, 2006 12:01 AM